Eu ♥ Ronaldo Fraga

Por sorte, uma amiga facebookou essa entrevista que o estilista Ronaldo Fraga deu para a TPM no começo de fevereiro. Um bate-papo franco, inteligente, emocionante. Destaco algumas passagens e deixo o link pra quem quiser conferir na íntegra – vale muito a pena, mesmo se você não tá nem aí pra moda!

Tpm. Por que você decidiu não participar do desfile de janeiro do SPFW?
Ronaldo Fraga. Eu não decidi parar de desfilar. Parei esta estação porque decidi fazer outras coisas. De duas estações para cá comecei a exercitar outras frentes e percebi que moda não é só passarela! Outros espaços, outros vetores estão me chamando. Fiz uma exposição, fiz direção de arte, fiquei três dias pirado desenhando à mão, com giz, o cenário do clipe Te amo, da Vanessa da Mata, dirigido pelo Wagner Moura, e aí pensava no desfile com certo pesar. Acho fascinante essa coisa do desfile, mas quero passar a fazer um por ano. Quero férias com meus filhos em janeiro, quero ficar mais tempo na minha fazenda.

Suas coleções são autobiográficas até hoje? São, claro. Eu acho que, se você tem uma pretensão à autoria, não dá para ser autor de nada se você não coloca a sua digital. A criação existe para… É provavelmente um ponto de conciliação com seus fantasmas, de tapar seus buracos. Tapei muitos buracos da minha essência na minha infância, na minha adolescência e já na fase adulta com coleções. Sempre levei muito a sério isso, sabe? E digo até hoje que a melhor coleção é aquela que me dê muitos livros para ler. Que me dê muito objeto de pesquisa, aquela que o objeto de pesquisa me vire do avesso. Para mim, nunca foi simplesmente uma coleção de moda. E fui entender isso quando assisti à Pina Bausch. Você sai e fala assim: “Hum… acabei de ler um livro maravilhoso”. Aquilo era só dança e não era só dança. Então, quando apresento um mergulho no universo do Guimarães Rosa, do Drummond ou do agreste pernambucano, para mim naqueles minutos – que no início eram 15, depois 13, depois 10, depois 8 minutos, que é a marca de um desfile hoje – estou contando uma história para aquela audiência. Estou contando aquela história para o país.

Um desfile tem esse alcance? Sim. Faz alguns anos que tomei consciência da força que é um desfile de moda no Brasil. Que entra na casa das pessoas de uma forma avassaladora. É uma mídia espontânea violentíssima e atinge todas as classes, de todas as formas. Então, quando conto uma história a cada estação, alguns estão pensando ali que estou só vendendo roupa. Embora respeite, acredite, me emocione, a moda é muito mais do que um vetor econômico. A moda pode ser um vetor de transformação social. É um vetor de apropriação cultural, antropofágico, antropológico e, no caso do Brasil, onde o brasileiro tem gosto por moda no mesmo peso que tem gosto pela novela, acho que a moda pode mais.

Pode mais em que sentido? A moda deveria fazer mais, porque ela registra o nosso tempo. Se existe o desejo coletivo de ir a um desfile, é só fazer as contas do quanto a gente pode atingir o povo com ele. Quando eu disse que a moda acabou, era a isso que me referia. Acabou tanto numa questão conceitual quanto econômica. Eu tenho pena dos designers que estão preocupados em vender a réplica do que está sendo feito em Nova York e Paris. Primeiro porque se copia com menos qualidade. E segundo porque as grandes marcas já têm lojas em São Paulo! As fórmulas caíram por terra. É tempo de exercitar o novo. O mundo inteiro está prestando atenção no que o Brasil come, canta, compra e veste. É hora de criar.

A exclusão do idoso na moda o incomoda? Não é a moda que exclui o idoso, é o nosso tempo. A televisão, o mercado profissional. E isso é caduco. Não existe mais pensar assim. Tudo que discuto na minha moda é parte de um desconforto meu. E olhar pra essa faixa etária e para essa discussão é urgente. Não é só poética, é econômica também. Quando a coleção do Drummond estava na loja, entrou uma senhora dizendo que ia comprar roupa para a neta, mas depois admitiu que era para ela. Ela não teve coragem de assumir, no início, porque já tinha sido maltratada em outras lojas. Com tanto silicone, com tanto corpo esticado, as pessoas ainda acham que não tem lugar para o corpo velho. E isso, claro, é o perfil de uma sociedade desmemoriada.

Você foi eleito por outros estilistas para ocupar o posto de primeiro representante do recém-criado Colegiado de Moda no Ministério da Cultura. Como está sendo essa experiência? A moda finalmente passou a ser entendida como cultura pelo governo brasileiro, mas foi difícil o setor de moda se envolver nisso. Meu mandato acaba em abril e quero que vá alguém novo pra lá. É importante que o setor de moda se envolva com política e que entenda como isso pode ajudar todo o setor. Mas a pior parte já foi feita, que foi legitimar essa cadeira diante do Conselho. Eles achavam que estilista era tudo rico, bem-sucedido e que não tinha nada a ver com cultura. Esse lugar já ficou no passado. Agora, falta muita coisa. A gente não tem um museu de moda no Brasil. Você fala de Nei Galvão, que foi um dos primeiros estilistas a falar de criação cultural nos anos 80, de George Henri e Gregório Faganelo e ninguém lembra deles. Se alguém quiser fazer uma pesquisa desses nomes, arruma patrocínio ou paga do próprio bolso para poder desenvolver. Se um estilista recebe convite para desfilar no Japão, para fazer uma exposição do que quer que seja, se ele não tiver dinheiro, não vai. Quanto o país perde com isso, né?

Você tem medo de envelhecer? Não tenho medo de envelhecer. Eu só morro de saudade da época que não tinha medo de morrer, que era quando não tinha filhos. O medo de morrer cedo, como os meus pais, está sempre aí. Outro dia sobrevoei a Amazônia por duas horas num helicóptero, passamos por uma tempestade e eu pensando: “Tenho dois filhos pra criar, minha gente!”. Não queria sentir isso, mas é natural de quem tem filho. Mas o envelhecer em si eu acho muito legal. Achava chato ser jovem. A melhor parte de envelhecer é que já nasci velho, então acho uma delícia.

Isso é luxo para você? Primeiro até esqueço o que é luxo, porque essa palavra já foi tão desgastada, que o que é luxo nem é luxo mais [risos]. Luxo é você ser autor da sua história! É uma coisa que, atualmente, tentam tirar de você o tempo inteiro. Você se envolve com tanta gente, com tantos compromissos. Então, você ser autor da sua própria história e definir os personagens, o cenário, a trilha e o figurino é um luxo que não pretendo perder de vista. Acho que é isso que me mantém… não sei se me mantém centrado… Mas é isso que me mantém tranquilo, que me mantém em paz.

OBS: na entrevista, Ronaldo fala do cenário que fez, de giz, pro videoclipe “Te amo”, da Vanessa da Mata. Curiosa, fui procurar no youtube. Vale ver!

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