Visita: Exposição Frida Kahlo

Depois de passar por São Paulo, a aguardada exposição Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México chegou ao Rio, mais precisamente na Caixa Cultural, no Centro. Fui lá semana passada e confesso que não amei. Não sei se estava num mal dia, mas não achei emocionante como esperava (há uns 6 meses vi uma outra expô dela e me conectei muito mais). A sensação era de apenas estar olhando um catálogo de obras da Frida misturadas com obras de outras pintoras surrealistas e contemporâneas a ela. Faltou algo.

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Os curadores fizeram o esforço de reunir alguns figurinos inspirados na artista, numa sala onde também podemos ver algumas fotos históricas de Frida. Isso deu um toque mais pessoal, de fato. Mas fiquei com vontade de mais! Talvez porque me veio à memória as aulas de Surrealismo que cursei em Lyon 3, fiquei tentando lembrar de todos os pequenos significados que meu professor buscava desvendar em cada pintura da Frida e de outros. Senti falta de ler sobre ou ouvir alguém conectando as imagens com as histórias pessoais da artista – que vivia sofrendo de amor ou de doença, mas sua força para produzir era louvável – e com outros embalos que cada símbolo (uma planta, um desenho, um animal) trazem.

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Aula com esse professor de novo, pra mim, provavelmente nunca mais, porém a gente ainda pode tentar entrar no universo da mexicana através do filme e das peças que vez ou outra pintam por aqui. (Lembro de quando devia ter uns 15 anos e vi uma com a Rosa Maria Murtinho, fiquei tocada com tanto drama na vida da pobrecita, mas também impressionada com a capacidade de dar a volta por cima.)

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Por isso, sim, vá ver, mas se quiser mergulhar mais profundamente busque a visita guiada ou outras fontes de conhecimento – livros (o diário dela tá na wishlist), estudos sobre, etc. A expô fica em cartaz até 27 de março.

The space in between

Musa da performance contemporânea, Marina Abramovic, ataca novamente e desta vez em terras brasileiras. Para quem não lembra, ela esteve por aqui em abril passado, e além de ocupar o Sesc em SP, pode rodar por algumas cidades em busca do ‘espaço entre’ – esse lugar onde se fica totalmente vulnerável, aberto aos ensinamentos do destino. O resultado a gente poderá ver em maio nas telonas.

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Acho muito interessante uma performer de mega destaque na arte contemporânea mundial estar interessada na diversidade da nossa cultura e da nossa natureza. Não apenas filmando ou fotografando essa realidade, mas indo além, numa abordagem meio antropológica, vivenciando, aprendendo e ensinando – a si e até a nós mesmos, que às vezes nem estamos ligados no tanto de poder que emana daqui.

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Marina veio buscar lugares de poder, trocar energia, testar realidades paralelas, saber mais sobre entidades, cultos e religiões. Vivenciou fortes e diferentes emoções, e também dores. É não é assim que uma pessoa cresce? No trailer ela explica sua missão: ‘como ajudar a expandir a consciência através da arte’?

O documentário foi dirigido por Marco Del Fiol e selecionado para um dos mais importantes festivais dos Estados Unidos, o SXSW – South By Southwest, sendo o único título não norte-americano entre os dez concorrentes da mostra Documentary Feature Competition, que teve mais de 1000 inscritos nesta edição. Chega em maio no Brasil.

Ansiedade a mil por aqui!

 

A arte de Mickalene Thomas

Mickalene estudou arte no Pratt Institute e em Yale, e é fortemente inspirada pelos gêneros clássicos da pintura de retrato, paisagem e natureza morta. O pintor Manet e o fotógrafo Malick Sidibé são algumas da suas influências. Juntando tudo isso à sua herança da cultura negra ela retrata mulheres fortes e fala de ideais de beleza, emponderamento, feminilidade, essência, transgressão.

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Além de produzir pinturas e colagens, Mickalene também é amante da fotografia, e claro, com as mulheres negras como objeto de observação das suas lentes. Ela cresceu vendo a mãe, modelo, participar de desfiles e começou a criar sua estética fotográfica a partir daí. E é isso que podemos em Muse: Mickalene Thomas Photographs, até março na Fundação Aperture, em NY.

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Nessa série de trabalhos podemos nos encantar com o universo kitsch – cheio de fascinação e, por que não?, elegância -, representando mulheres que são fortes e cheias de beleza real, mas que não têm o ‘ideal de beleza’ preferido pela mídia e a publicidade. Até quando?

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Não pude conferir ao vivo, mas pelas fotos vemos que a exposição reúne fotografias em larga escala e até reproduz alguns dos ambientes usados/criados para os trabalhos da artista.

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Curiosidade pop: é dela também a foto do álbum True, da musa Solange Knowles.

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Aqui dá para ver o livro feito sobre a exibição e neste outro link dá pra ler uma entrevista bacana pra Interview Magazine, sobre uma outra série de trabalho exibida em 2014.

A vida, o ego e outras cositas

Outro dia me deparei com esse vídeo no Face, um astrólogo compartilhou como exemplo de energia ‘aquariana’. Um ponto de vista sobre a vida à la ‘On the road’:

Depois vim parar nos vídeos de Eckhart Tolle. Pra quem busca transformação através do autoconhecimento:

Bom despertar.

Tangerina e outras drogas

Pra mim, Carnaval é tempo de curtir uns bloquinhos e também colocar alguns filmes em dia. Por isso aproveitei a vibe de descanso pra assistir ao documentário sobre a Amy Winehouse (já está no Netflix) e ir ao cinema ver Tangerina, longa gravado em iPhone.

Hoje em dia já não escuto mais tanto, mas ainda me considero fã da Amy. Teve uma época em que ouvia seu CD Back to black inúmeras vezes e fui no seu show aqui no Rio (quem lembra?). Sua voz toca fundo lá na alma e suas letras mostram que é ok sofrer por amor, se sentir uma louca, mas que também é possível dar a volta por cima. Por isso, não faltam motivos pra gente saber mais sobre a vida pessoal dela, tentando ir além das notícias terríveis que circulavam pela internet falando que ela fugiu do rehab, ou arrumou confusão com paparazzis, etc.

Por que será que uma das mulheres mais talentosas da música nos últimos anos entregou a carreira e a vida de mãos beijadas para as drogas? O doc tenta desvendar isso mostrando depoimentos de amigos e empresários, além de filmagens pessoais da cantora em sua intimidade. Dá pra sentir que, apesar da voz forte, Amy era bem frágil e não se encaixava no mundo do showbizz, tendo uma certa aversão à fama. Difícil de lidar, com certeza. Mas mesmo depois das duas horas de filme eu segui sem entender como tanto talento podia ir por água abaixo assim.

Despretensioso, engraçado, emocionante, triste, enfim… foda. Esses são alguns termos que vêm em mente quando lembro de Tangerina. Filmado em iPhone, o longa mostra um pouco da realidade de duas travestis em Los Angeles dispostas a fazer de tudo pra atingir seus objetivos – sejam eles cantar num bar ou descobrir quem é a amante do namorado.

A gente vai seguindo as duas por um dia em L.A e fica mais por dentro dessa realidade tão dura – ser profissional num ramo ilegal, lidar com todo tipo de gente, desejo, tabu e droga. Tudo isso apimentado com bom humor e ironia típicos de quem se reinventa e luta por seu lugar ao sol no outro lado de Holywood. Torço pra que o filme levante a bandeira e a gente veja cada vez mais atores e personagens trans nas telonas. Ah, vale ler essa matéria pra saber mais sobre o processo de filmagem em iPhone 5s.

Da filinha do Oscar ainda quero ver O menino e o mundo, Joy, A grande aposta e A garota Dinamarquesa.

Eu sou Ingrid Bergman

Dica de filme: o documentário sobre a atriz sueca Ingrid Bergman. Ainda está em cartaz no Rio e é uma boa opção pra fugir do calor que voltou a reinar por aqui.

Nele vemos como Ingrid, além de amar a profissão de atriz, adorava também fazer vídeos da sua vida pessoal. Muitas das cenas do doc são com filmagens originais dela. As infos reunidas também vêm dos diários que mantinha e das cartas que ela trocava com amigos. E os filhos dão depoimentos emocionantes sobre a mãe.

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Tudo isso faz a gente se sentir bem próximo da personalidade e das vivências da atriz. Confesso que sabia bem pouco sobre ela, mas adoro documentários sobre pessoas. Saí de lá me sentindo um pouco íntima, e muito inspirada. Ingrid sabia que queria ser atriz desde novinha, se destacou na cena da Suécia e logo pegou um navio em direção a Holywood. Lá seu jeito determinado foi lhe rendendo participações em filmes, até virar a estrela principal de produções junto com galãs americanos. Em um dos diários, ela contou que assim que chegou em L. A, estava em uma festa e um dos produtores disse que ela nunca seria uma atriz de sucesso pois era muito alta. Em vez de acreditar nele e se sentir mal, ela escreveu “ele não me conhece”. Puro poder! 😛

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E foi assim, com muita determinação e cuidado na hora de aceitar os papéis que Ingrid trabalhou com os melhores diretores da época, como Hitchcock, de quem ficou bem próxima. A vontade de mudar um pouco o estilo dos filmes que fazia a levou pra Europa, onde já estava apaixonada pelo estilo de Roberto Rosselini. A admiração fez com que ela escrevesse uma carta pro diretor, se apresentando e falando da vontade de trabalhar junto. Isso rendeu um trabalho, um segundo casamento, mais três filhos e, claro, um escândalo pra família tradicional que mal aceitava o divórcio. Nada abalou Ingrid que seguiu tocando a vida e trabalhando com quem mais admirava.

O trailer dá uma ideia do que te espera:

As fotos de Viviane Sassen

É muito bom quando você se apaixona pelo trabalho de um fotógrafo. Mesmo que só virtualmente. Foi assim hoje… descobri as fotos da Viviane Sassen por uma divulgação da página do site Nowness e pirei.

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A matéria, na real, é de 6 anos atrás, mas as fotos poderiam ter sido feitas ontem. O Nowness reuniu imagens que Viviane clicou na Tanzânia, com efeitos de light painting formados pela longa exposição. A escolha do contraste entre os corpos, a luz, o cenário, deu um tom misterioso e ao mesmo tempo muito cool.

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Na entrevista, a artista conta que era estudante de moda, quando participou de um desfile pra ajudar os amigos Viktor & Rolf, mas nos bastidores se apaixonou mesmo foi pelo trabalho dos fotógrafos que registravam cores, ângulos, texturas e corpos com suas lentes.

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Viviane usa a sombra e a luz como elementos gráficos, e gosta de trabalhar num tom ‘acima’ ou ‘abaixo’, com fotos que não se revelam imediatamente ao olhar, ficam por ali, nas entrelinhas.

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A fotógrafa tem uma relação próxima com alguns países da África pois já morou no Quênia dos 2 aos 6 anos. Agora vive e trabalha em Amsterdam. No site dela dá pra ver os livros já publicados, tudo com um cuidado estético e um olhar muito interessante.

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Pra viajar… e inspirar, mesmo sem sair de casa.

 

 

Dos cafés com Patti

Ano passado em um domingo em NY, saí pra tomar um café, tentar comprar um par de tênis… voltei pra casa com duas novas aquisições. Novinhos em folha, prontos pra me acompanharem nas viagens de metrô e nas tardes aquecidas:

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Sim, o sapato podia ficar pra depois, era hora de arrumar um bom livro pra ler e nada melhor do que conhecer Patti Smith. Comecei pelo Só Garotos e não deu vontade de terminar de ler… Esse livro é daqueles que fazem a gente se sentir totalmente dentro da história, e essa história é nada mais nada menos que NY na década de 60, explodindo com movimentos artísticos, poesia, fotografia, libertação sexual, drogas, enfim, autêntico #vidaloka. Mas não é um simples retrato histórico da cidade. A gente vive um pouco da infância/juventude de Patti, e muito de sua trajetória com Robert Mapplethorpe. A ligação deles é bonita de se ler, algo diferente do que ‘apenas’ um amor entre namorados…entre eles rolava uma mútua alimentação artística; a conexão ia muito além do eixo homem/mulher.

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“Both of us had given ourselves to others. We vacillated and lost everyone, but we had found one another again. We wanted, it seemed, what we already had, a lover and a friend to create with, side by side. To be loyal, yet be free.”

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Só Garotos é um mergulho na vida de verdadeiros artistas, aqueles que muitas vezes passam aperto financeiro, que não têm rotina ou às vezes trabalham só pra ter um sustento básico e poder comprar material pra criar. Motivações filosóficas e pessoais, a vontade de expressar algo que incomoda e corta lá dentro, a vontade de romper barreiras e transformar comportamentos. Uma arte em um tempo que permitia experimentações, que o prazer era se sentir criando, fazendo, influenciando vidas e personalidades.

É até curioso que em M Train Patti mal fala de Robert. Mas a gente se sente seguindo a vida com ela, depois da perda do melhor amigo, do marido e do irmão. Nessa leitura me senti como se tivesse conhecido Patti como uma senhora meio mal encarada num café, contando histórias pra quem lhe parecesse interessado em ouvi-la ruminando sobre a vida. São lembranças tocantes e excêntricas, sobre a viagem à Guiana Francesa, alguns passeios por cemitérios, e quase perder uma casa em um furacão… Confesso que preferi o entusiasmo de Só Garotos. Mas a escrita de Patti é tão bonita, pessoal e sensível, que cada página de M Train continua sendo um prazer.

“How did we get so damn old? I say to my joins, my iron-colored hair. Now I am older than my love, my departed friends. Perhaps I will live so long that the NY Public Library will be obliged to hand over the walking stick of Virgnia Woolf. I would cherish it for her, and the stones in her pocket. But I would also keep on living, refusing to surrender my pen.”