Stella, a metamorfose ambulante

(Vou ser sincera, era pra eu ter escrito este post há dois meses. Só que por vários motivos ~errados~ eu fui deixando na gaveta. Agora a exposição acaba em duas semanas. Mas antes tarde do que mais tarde!)

Frank Stella sempre foi, pra mim, o cara que ~brincou~ com a pintura de uma maneira bem inteligente e ousada. Pra quem não sabe, ele ganhou destaque na virada da década de 50 pra 60 com suas Black Paintings, transformando o universo do expressionismo abstrato e se tornando um dos marcos inaugurais do minimalismo.

IMG_6023

A retrospectiva no novo Whitney nos permite ver os trabalhos desde essa época, e como Frank, esperto que só, foi se reinventando a cada série, muitas vezes desdizendo aquilo que já tinha sido sua teoria. Sim, porque depois de fazer algumas obras-primas do minimalismo, Stella surpreendeu com o uso de inúmeras cores, trabalhos em escalas monumentais, pinturas feitas em superfícies de alumínio (essa abaixo me lembrou muito a estética do graffiti). Ele se recusa a seguir uma linha específica, desafiando o mercado e os críticos.

IMG_6036

Vá com tempo e aprecie a exposição todinha, porque é a chance ficar cara a cara com um pedaço muito estimulante da história da arte. Os andares do museu estão recheados com pinturas, esculturas (aliás, a pergunta ‘isso é uma pintura ou uma escultura?’ muitas vezes vem à tona), gravuras, trabalhos em relevo, além de estudos em desenho. O passeio por lá é uma delícia, algumas das galerias têm janelas que dão pro Rio Hudson, enchendo de luz natural o Museu.

IMG_6031

É arte ‘fria’, é arte ‘quente’, é minimalista, é Carnaval. Tem-se um pouco de tudo na trajetória de um dos artistas plásticos mais importantes (e vivos) dos EUA. É bom pra treinar o olhar, ler e ouvir o que o artista tem a dizer e, claro… abrir a cabeça.

IMG_6052

Por isso, se estiver em NY até 7 de fevereiro, simplesmente vá!

yoko ono – one woman show

Não é simples falar sobre a arte de Yoko Ono. Suas criações são facilmente acessíveis ao primeiro olhar, mas carregam muitos significados, conceitos que embaralham nossas ideias e mexem com a gente… como a arte contemporânea deve ser. Fui no MoMa ver de perto a exposição sobre a musa de John Lennon (que é muito mais do que isso). Vem saber:

Processed with VSCOcam with g3 preset

A mostra fica em cartaz até Setembro e foi cuidadosamente montada pelo curador e pela própria Yoko, que aliás, deixa um recadinho no fim do percurso da exibição. Mais um sinal de que tudo foi feito com cuidado pra você se sentir um pouco na vida da artista. Talvez também porque sua arte é muito autobiográfica: fala de ser Yoko, fala de ser mulher, fala de ser artista, fala do mundo.

Processed with VSCOcam with f2 preset

E fala através de delicadas e fortes transgressões ao banal. Hoje, ver uma maçã sobre um pedestal de vidro pode parecer infundado, mas nos anos 60, quando a obra foi criada, era uma nova forma de refletir sobre o valor da arte, a transitoriedade do tempo e da vida. Por isso somos saudados com esse trabalho polêmico no começo da exposição. Aos poucos vamos descobrindo mais sobre a Yoko, e se nos deixamos mergulhar em seu pensamento sempre fora da caixa vemos como seu valor foi muito além de uma maçã e ganhou o mundo com um discurso de paz, não violência, feminismo, amor, empatia, inteligência

Processed with VSCOcam with g3 preset

“Pise na arte”, diz um trabalho, “esqueça isso”, diz outro. A anti-arte de Yoko reflete os novos rumos da contemporaneidade, trazendo uma reflexão ao trabalho, reflexão que vai além da obra e abre espaço na nossa mente pra novos insights, mudança de conceitos e vontade de sair da tal ‘zona de conforto’ e eu diria também da ‘zona de ignorância’. Porque ver o mundo com um outro – e encantador – olhar é simples, basta virar uma chavezinha na mente pra destravar o botão que deixa nossos pensamentos padronizados.

Processed with VSCOcam with b5 preset

Se entregar à essa exposição é também ter acesso a escritos do livro Grapefruit, que reúne 150 pequenos textos de Yoko que são como ‘instruções’ pra fazer arte, uma reunião das ideias mais possíveis às mais improváveis, todas guiadas pela imaginação da autora. Se o ‘click’ ainda não tinha vindo, esse é um bom momento pra se deixar levar e perceber que arte na verdade é um estilo de vida, que várias ações cotidianas ‘viram’ arte se a gente colocar a intenção, o conceito, a reflexão. Não é preciso, sempre, ter tela, pincel e tinta pra criar e inspirar…

Processed with VSCOcam with f2 preset

Observar a instalação Half Room é curioso. Um cômodo belamente decorado com cadeiras, estantes, utensílios, quadros, roupas, acessórios…mas todos pela metade. O que a artista queria? Despertar no outro a consciência de como somos todos incompletos, metades procurando significados na arte, na política, na moda, em lugares e em pessoas pra nos ajudarem a revelar nossa essência. Algo profundo, mas relativamente ‘simples’ de ser mostrado. Assim como Morning Piece, fragmentos de vidro com datas futuras coladas pra se ter um pedaço da manhã de um certo dia… quem não queria?

Processed with VSCOcam with f2 preset

Na expô também dá pra ver muitos trabalhos criados entre Yoko e John, casal unido pela arte e que mostrou como cada ação, cada período da vida (até a lua de mel) pode ter um significado, pode levantar uma bandeira, pra eles, principalmente política. Na época da guerra do Vietnã os dois espalharam cartazes dizendo que a guerra tinha acabado… se você quisesse. Um despertar pra quem estava se achando incapaz de mobilizar a paz naquele momento. Um recado pra vida toda, em qualquer época: a paz sempre vai ser uma opção.

Processed with VSCOcam with f2 preset

Ali, naquele pedacinho de Manhattan, a gente também entra numa máquina do tempo e acompanha algumas performances e instalações criadas por Yoko, algumas dos anos 60-70, outras feitas pra exposição.

Processed with VSCOcam with x1 preset

Fotos: @marivferrari

Uma delícia se envolver em cada trabalho e deixar sua mente e coração serem guiados por essa mulher que até hoje encanta com suas palavras e representações – quer ter um gostinho? Segue ela no Instagram. Por lá ela continua fazendo, e vivendo, arte.